quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Capítulo 5

No qual Milton explica como o demônio se disfarça e Agostinho conhece um anjo

1
Agostinho dormiu a noite inteira um sono dos justos. A conversa do dia anterior com a viúva ainda batia e rebatia em sua cabeça. Ela dissera que ele não parecia um padre... e tinha sido tão dura, mas ao mesmo tempo tão suave. “Não”, pensou ele “Não devo cometer o mesmo erro duas vezes!”. Nisso olhou para o lado e encontrou seu superior sentado na cadeira como antes.
- Eu velei seu sono, meu bom pupilo. Dormiu bem. Na minha idade, não consigo mais dormir como os jovens. Mas será que era mesmo um sono correto? Percebi que murmurava palavras inteligíveis... não teria sido visitado por um súcubo?
Agostinho enrubesceu. Um súcubo era um demônio sexual feminino. Quando um monge ejacula durante a noite, era o demônio, na forma de mulher, encantando-o e levando-o na direção das trevas. “São crendices”, dizia seu professor de Filosofia Natural, muito baixo para que não pudesse ser escutado, e apenas para ele, que era seu discípulo mais querido e mais confiável. “Tive ocasião de examinar o corpo humano e de investigar muitos casos. Posso lhe dizer que as poluções noturnas são um fenômeno absolutamente comum. É apenas uma reação do organismo, uma descarga”.
Agostinho olhou para a batina, temendo que estivesse suja e isso provocou uma risada sarcástica de seu superior.
- Ouça, meu filho, não flerte com o demônio. O demônio é a mulher. Sábios eram Heinrich Kraemer e James Sprenger. Eles diziam que deve-se exorcisar o demônio que tem seios e cabelos longos. Leia Malleus Maleficarum, meu filho.
E, olhando para cima, recitou, como aprendera, em espanhol: “su voz
es como el canto de las sirenas, que con sus dulces melodías atraen a los viajeros
y los matan. Pues los matan vaciándoles el bolso, consumiéndoles las fuerzas, y
haciéndolos abandonar a Dios.”
- Agostinho, não te iludas. A bruxa, feia, com os cabelos desgrenhados, desdentada e apavorante é a mulher em seu estado natural, pois o diabo vive da luxúria carnal, que nas mulheres é irresistível. A mulher, meu filho, é mais amarga que a morte. Seu beijo é como a picada do escorpião. Seu abraço é um garrote que tira do homem a vida. A serpente seduziu Eva, que fez perder o homem. Não fosse ela, teríamos o paraíso na terra. São Bernardo disse que seu rosto é um vento queimante e que sua voz é como o sibilo das cobras.
O Inquisidor fechou os olhos e arranhou o encosto da cadeira com as unhas, como se resistisse a algo.
- Catão de Utica disse que se pudéssemos nos livrar das mulheres, não teríamos necessidade de Deus nas nossas relações, pois sem a malícia e bruxaria das mulheres, o mundo não conheceria perigos. Valerlo disse delas que são como as Quimeras, pois o monstro tinha três formas: seu rosto era do radiante e nobre leão, tinha o ventre asqueroso de uma cabra e o rabo era de uma serpente. Da mesma forma, a mulher é formosa em aparência, contaminada ao tato e mortífero viver com ela. Os Eclesiastes dizem dela que "No hay cabeza superior a la de una serpiente, y no hay ira superior a la de una mujer. Prefiero vivir con un león y un dragón que con una mujer malévola".
Embora tencionasse discordar, Agostinho preferiu calar-se. Não parecia que a mulher fosse nada disso. Ele conseguia ver na filha de Eva a candura e o instinto materno, a emoção que homens embotavam.
- Mas é bom que saiba, meu bom pupilo, que não é só a mulher a fonte da danação. Também os judeus o são.
- Mas, senhor, Jesus e os discípulos eram judeus!
- Os apóstolos se redimiram ao tornarem-se cristãos, como Paulo, que limpou suas mãos do sangue quando se converteu. Quando ao Cristo ser judeu, não diga heresias, não diga heresias!
E lançou um olhar inquisidor, como se esperasse ser contestado. Como agostinho não dissesse nada, continuou.
- As verdades reveladas estão além da dúvida e não queira usar sua lógica humana e falível para entender os desígnios divinos. As coisas são dessa forma, e que Deus me puna se forem diferentes do que falo. O demônio, ele em pessoa dá aulas nas sinagogas. Meu filho, os judeus tomam como cuidado seu profanar hóstias e envenenar a água benta. Dizem que cospem sobre a hóstia usando a mesma boca que beijou as pudentas do diabo. É graças a eles que surgiu a peste negra, a febre amarela e todas as outras desgraças. Se não fosse assim, porque seriam perseguidos em todos os cantos? São como baratas, como ratos, covardes e dissimulados. São o povo do demônio, que quer dominar o mundo, mas será pisado como a virgem Maria pisou a cobra!
Disse isso e franziu o cenho de sobrancelhas carregadas.
- E não se misture com o negro. Não defenda negros. Como o pecado, o negro é inimigo da luz e da inocência. Santa Tereza era uma inimiga ferrenha do mestre das trevas e um dia ele a visitou. Era um garotinho negro com uma chama vermelha. Estava nu, pois os demônios, assim como os negros, não têm vergonha de seus próprios corpos. E assim, nu, ele se sentou sobre as sagradas escrituras, máxima heresia e com suas pudentas em chamas queimou o livro.
Nisso ouviram batidas na porta. Agostinho foi abrir. Era Pedro.
- Senhor padre, uma coisa terrível aconteceu.
- Uma coisa terrível?
- É monstruoso!
- Vamos, diga logo!
- Temos um morto. Um assassinato!
- Quem?
- Miguel!
- Vamos ver isso.
Enquanto saia, Agostinho ouviu seu superior falar às suas costas:
- Eu disse! É o demônio! Ele está neste barco...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Capítulo 4

5
Jean-Pierre desceu até o camarote da mulher de branco. Levava consigo um prato de canja e um biscoito.
Helena sorriu ao vê-lo. Uma reação estranha, diante da forma como ela o expulsara da última vez.
Ele depositou o prato sobre a mesinha e sentou-se ao seu lado.
- Helena, vejo que está bem melhor...
Ela olhou para ele:
- Eu sei o seu segredo...
O rapaz estremeceu:
- Meu segredo?
- Sinto muito por tudo que passou. Sei que não foi culpa sua.
Se ela parecia linda antes, agora, sorrindo, aparentava um anjo.
- Eu trouxe comida para você.... coma um pouco.
Ela pegou o prato e começou a comer pequenas colheradas. Tinha um ar elegante, as mãos delicadas. Isso fascinava Jean-Pierre.
Entre uma colher e outra, ela olhou-o nos olhos:
- Não deixe que seu amigo Pedro venha aqui...
- Pedro? Sim, se você quer, vou proibi-lo de vir aqui...
- Como está o capitão?
O rapaz franziu o cenho. Helena não poderia ter como saber o que acontecera ao capitão.
- O que sabe do capitão?
- A esposa dele esteve aqui comigo.
Um calafrio percorreu a espinha de Jean-Pierre.
- A esposa dele? Impossível! Não embarcou nenhuma outra mulher além de você e daquela viúva...
- Ela mandou um recado. Diga ao capitão por mim?
- Qual recado?
- Ela disse que o está esperando... promete que diz isso a ele? É o único modo... eu...
Jean-Pierre prometeu. Naquela noite ele pensou em dividir a cabine com a moça, mas achou que isso não seria correto. Tentou dormir na coberta onde ficavam os marinheiros, mas um pensamento o assaltava. Já era alta noite quando ele se levantou e foi até a cabine do capitão. A porta rangeu suavemente e o rapaz achou que isso teria acordado o capitão, mas o homem estava lá, de olhos abertos, como se estivesse aguardado por ele.
- Capitão... capitão, eu... preciso lhe dizer algo... tenho um recado de sua esposa.
A reação foi imediata. O capitão, que até então tinha o olhar perdido, olhou interessado para ele.
- Ela disse que está esperando por você.
O capitão sorriu.
Jean-Pierre fechou cuidadosamente a porta e voltou para sua rede. Dormiu muito bem.
Acordou cedo no dia seguinte, como era seu costume. Levantou-se da rede e subiu a coberta. Quando estava na primeira coberta, por alguma razão, sentiu que deveria fazer algo, mas o quê? Era como se tivesse se esquecido de alguma coisa. Olhou para o lado e viu a porta da cabine do fazendeiro. Suas pernas o levaram naquela direção, embora sua mente perguntasse ininterruptamente por que fazia isso.
Finalmente chegou no seu destino e parou. Levantou a mão esquerda e tocou suavemente na porta, que abriu com um rangido. Esperava receber uma repreensão, mas não ouviu nada. Deu dois passos e entrou no camarote. Foi quando teve de segurar um grito de terror.
O fazendeiro estava morto. Assassinado!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Capítulo 4


4 Manuel
Quando chegou a noite, Manuel fechou a padaria e foi perambular pelos lados da casa da nova moradora. Fazia de conta que só estava exalando o ar puro do fim de tarde, mas olhava ostensivamente para o sobrado, a ponto da patroa ter dito ao esposo:
- Olha lá aquele paspalho! Está aí feito uma barata tonta! Ou é um ladrão ou sei não...
- Joaquina, você sempre maldando as coisas... vai ver que o coitado está perdido...
- Se estivesse perdido, ia procurar a casa dele, e não ficava rondando a nossa.
- Ah, devias é ler menos esses romances! Estás com a cabeça a pensar demais. Mulheres que pensam muito ficam loucas.
- Posso ter ficado louca, mas que isso tudo é muito estranho, isso lá é!
No final das contas, acabaram se esquecendo do homem estranho e foram dormir.
O padeiro ficou lá, com seu olhar perdido. Até que só sobrassem ele e os gatos miando nos telhados.
Tomando coragem, ele pegou uma pedra e jogou numa janela que imaginava ser da criada. Ficou alguns minutos esperando, na angústia de não saber se era a janela certa. Teve vontade de ir ao banheiro. Apertou as pernas para domar ao desejo e jogou nova pedra. O som que ela fez contra a madeira pareceu um estrondo, mas deve ter sido só um tec de nada no meio da noite.
Em todo caso, acordou a moradora da casa, que abriu a janela. Manuel foi tomado por um medo anormal e correu para esconder-se. A janela ficou aberta por alguns instantes e percebia-se que alguém olhava de um lado a outro.
Então a janela se fechou.
Perdera a oportunidade de novo! Dessa vez a vontade de ir ao banheiro tornara-se ainda mais premente. Teve vontade de mijar ali mesmo, mas seria o cúmulo da descortesia. Acordar sua dama de noite e ainda urinar debaixo da janela de seu quarto seria o cúmulo da falta de romantismo.
Assim, pegou uma nova pedrinha e voltou a lançá-la contra a janela. Dessa vez, jurou, ia até o fim.
Quando a janela se abriu, as pernas quiseram correr desesperadas, mas ele segurou-as, dizendo para si mesmo: “Fica paspalho!”
- Quem é que está jogando pedras na minha janela?!
Era ela, sua donzela, sua deusa querida e idolatrada. Contra a luz da lua ficava ainda mais linda. Sua pele adquiria uma qualidade diáfana e seus olhos pareciam faróis iluminando uma vida.
- Er... fui eu, senhorita minha!
- Quem é você? Eu por acaso lhe devo dinheiro? Se for, nem adianta! Não tenho um tostão. Suma ou eu chamo a polícia!
- Não, senhorita! A senhorita me entendeu mal! Não vim cobrar nenhuma dívida!
- Então veio fazer o que a essa hora da noite?
- Eu vim... vim...
A voz não saia. Como justificar essa visita tão estranha em tão adiantada hora? Então lembrou-se do presente.
- Minha cara senhorita! Trouxe-lhe um presente!
E estendeu o pacote com papel pardo.
A moça abriu o pacote e viu seu conteúdo.
- Ah, é o padeiro! Veio me trazer um pão de madrugada? Que história é essa?
- Não é um pão qualquer. É um panetone.
- Como?
- Um panetone. Pão de toni. Uma iguaria digna de uma rainha. Veja como é suave a massa, como ela imita a beleza de suavidade de sua pele... como seu aroma derrete na boca, e como as passas apresentam um belo contraponto... um verdadeiro manjar dos deuses.
Enquanto falava, Manuel via espantado a mulher devorar a três bocadas o presente. Foi tão afoita que migalhas se espalharam pela camisola.
- É, não é ruim não! Só achei pouco. Da próxima vez traga mais!
- Sim, sim, minha senhorita!
- Agora vou dormir, que acordo cedo.
- Claro, claro!
- E quero deixar claro que só aceitei esse presente por educação, viu?
- Como não? Óbvio que sim.
- Espero que não esteja com segundas intenções...
- Nem penso nisso!
- Ótimo. Agora vou dormir!
Mas antes de fechar as janelas, ela recomendou:
- Da próxima vez, traga um pão maior, certo? E umas rosquinhas para ajudar a digerir.
Manuel voltou para casa com o coração aos pulos. Sua donzela havia aceitado seu humilde presente! Não só isso! Também pedira mais! Era mais do que um homem poderia querer!
Naquela noite ele sonhou que fazia dezenas, centenas de pães, e que sua musa os devorava um a um, até que não restassem nem mesmo migalhas.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Dica de blog

O Quadrinhopole, do amigo Leo Melo, um dos grandes roteiristas brasileiros.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Capítulo 4

Parte 3
Agostinho desceu a coberta na direção do quarto do capitão. Encontrou-o na cama, delirando e falando frases desconexas sobre seu tesouro.
Os dois marinheiros descobriram o lençol e deixaram à vista a perna.
Agostinho havia tido lições de medicina e sabia que a gangrena estava tomando conta de tudo.
- É muito estranho, pois o acidente deve ter acontecido há pouco tempo e a ferida não deveria estar nesse estado. Em todo caso, ele vai morrer se não amputarmos a perna.
- Amputar? – Jean-Pierre parecia apavorado.
- Conseguem uma serra?
- Acho que sim. – respondeu Pedro.
- Vamos precisar também de uma faca afiada. Uma faca longa.
- Já tivemos um cirurgião a bordo. Acho que podemos encontrar tanto a faca quanto a serra entre as coisas que ele deixou no navio.
- E vamos precisar de aguardente. Só o aguardente vai ajudar esse pobre homem a resistir.
Os dois já iam saindo quando Agostinho lembrou:
- E fogo. Vamos precisar de fogo.
Com alguma dificuldade, os três homens entornaram pinga na boca do homem até que ele ficasse mais inconsciente do que já estava.
Agostinho pegou uma corda e amarrou forte na perna, no ponto acima de onde seria feito o corte. Depois agarrou a faca longa e olhou para os outros. Pedro segurava a serra e Jean-Pierre estava ao lado de uma vasilha de metal, repleta de brasas. Uma colher com cabo de madeira fora mergulhada nas brasas e já estava vermelha com o calor.
- Prontos?
Os dois fizeram que sim com a cabeça.
O golpe desferido foi certeiro. A faca afiada entrou fundo na carne.
O capitão reagiu gritando como um louco. Pedro foi obrigado a segurá-lo para que Agostinho terminasse o serviço. A faca ia avançando pela carne, separando músculos e encharcando de sangue o colchão. Algum tempo depois, o osso apareceu. Agostinho olhou para Pedro:
- Eu seguro ele! Preciso de alguém mais forte para serrar isso.
Pedro segurou a serra, enquanto o religioso segurava o capitão. Agostinho ficou surpreso com seu sangue frio. Ele avançou com o instrumento rapidamente, como se já estivesse acostumado a fazer isso, e em poucos segundos a perna estava totalmente separada do resto do corpo.
Jean-Pierre pegou a colher e começou a aplicar o ferro quente contra a chaga aberta, cauterizando a ferida.
O capitão desmaiou. Mesmo embriagado, havia mais dor ali do que um homem pode suportar.
Pedro e Agostinho estavam sujos de sangue, que espirrara durante a operação.
- Vamos nos lavar e comer uma canja. – disse.
Pedro sorriu.
Para surpresa de todos, a comida estava saborosa. Terminado o jantar, Agostinho desceu, levando um prato de canja para o capitão. Este olhou-o, estranhando:
- Quem é você?
- Sou um dos passageiros. Ouça, o senhor precisa comer para recuperar suas forças...
- Onde está meu tesouro? Onde está minha esposa?
- Senhor, eu nada sei sobre seu tesouro ou sobre sua esposa. Ela não embarcou com o senhor. Deve estar em terra firme, viva e saudável. Agora precisamos cuidar de sua saúde.
O capitão chorou:
- Minha esposa. Minha pobre esposa...
- Por favor, coma...
Agostinho levou uma colher à sua boca. O capitão comeu, mas como uma criança que ainda não aprendeu a controlar seus órgãos. Mal abria os lábios quando a colher se aproximava e olhava num ponto fixo, dizendo sempre:
- Minha esposa. Minha querida esposa. Você está aí?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Capítulo 4


Parte 2 - Manuel
Manuel costumava dizer que só começou a viver quando conheceu Maria. Era já um homem feito, nenhum garoto, mas de fato nunca vivera. Sua rotina, desde que nascera, era a padaria do pai. Era um padeiro de talento, que não se contentava em fazer pães normais. Gostava de experimentar receitas e variar o cardápio oferecido pela casa.
Quando soube da existência do panetone, logo se interessou pela novidade. Foi informado que a iguaria tinha sido criada na Itália e que se chamava assim porque fora inventada por um padeiro de nome Tone. Pane de tone. Panetone. A pessoa que lhe contou, disse que o tal tone criara o pão para aplacar a fome de vingança de um rei que sitiava a cidade.
Manuel se encantou com a idéia de um pão salvando uma cidade e mais ainda com o sabor que o estrangeiro lhe oferecia. Era uma massa suave e doce, com deliciosas passas. Tanto que tentou, tentou, até conseguir reproduzir o sabor.
Pareceu-lhe que era uma previsão. Justo no dia em que o panetone pegou o ponto, Maria visitou a padaria pela primeira vez.
Embora os amigos dissessem que ela era gorda e vesga e já não andasse na flor da idade, a Manuel ela pareceu uma princesa. A boca, que aos outros parecia torta, a ele era um exemplo da sabedoria estética do divino Deus. A voz, esganiçada para muitos, era uma melodia de sereias sussurrando nas beiras dos lagos e contando os segredos dos tesouros deixados pelos mouros, guardados por elas.
Em uma palavra: Manuel se apaixonou, como nunca havia se apaixonado antes por nada, exceto talvez pelos pães. Mas os pães não falavam com ele. Os pães eram quentes apenas quando ele os tirava do forno... e Manuel já pensava em arranjar uma costela para esquentar sua cama nas noites frias de inverno, quando se olha para o lado e se sente falta de alguém ali.
Manuel atendeu-a, recebeu o dinheiro, e acompanhou-a com o olhar, totalmente inebriado.
Só quando ela já havia sumido na esquina é que ele percebeu que não sabia nem mesmo o nome dela. O panetone! Poderia ao menos ter lhe dado um panetone de presente! Que idiota era ele! Ia correr atrás dela agora mesmo, gritando a plenos pulmões seu amor...
Mas seria ridículo. Em todo caso, Manuel não teria mesmo coragem. Além disso, qual seria a reação dela? Não seria muita indelicadeza dele para com tão nobre senhorita? Sim, senhorita, pois ele observara seus dedos e não havia nenhum anel ali, nem de casamento, nem de noivado.
Era uma senhorita, linda e desimpedida, à espera dele e de seus pães.
Naquela noite Manuel não dormiu. Isso em si não era novidade, pois o ofício o obrigava a dormir pouco a cada noite, acordando cedo para preparar a massa e assar. O que era novidade é que naquela noite ele rolou de um lado para o outro, rememorando cada detalhe do rosto virginal da sua senhorita. Rememorando cada palavra dita por ela:
- Quanto é o pão?
- Para a senhorita todo o pão é de graça, e a princesa ainda leva consigo, de brinde, o meu coração. Uma lembrança... a senhorita não é daqui, logo se vê...
- Minha patroa se mudou há pouco, mas vou virar freguesa de tão doce padeiro... – disse ela piscando seu olho vesgo.
Não, não fora assim que acontecera. Manuel não tivera coragem de dizer nada mais que o preço do pão.
- Que idiota! – pensava ele, e virava de lado. Esse lado não parecia bom, e ele virava do outro lado. Também esse não encontrava jeito, e virava de novo.
No dia seguinte, ele procurou pela sua princesa e a encontrou lavando a roupa de sua patroa. Estufando o peito, ele propôs:
- Case-se comigo e eu lhe darei muito amor e pães!
Ela se agarrou a ele, pendurando-se em seu pescoço e ficando apenas na ponta dos pés. De lá foram para a igreja, onde todos os amigos os esperavam. Foi uma festança enorme, com muito vinho e comida. Ele até preparou uns biscoitos de polvilho, difíceis e trabalhosos, e que desapareciam como que por encanto, graças aos comensais que comiam aos montes, dizendo entre si: “Isso sim é uma delícia!”.
De lá foram para uma lua-de-mel como jamais se viu outra. Manuel usou todas as suas economias e levou sua princesa para um castelo tão grande e belo quanto o amor que sentiam um pelo outro. E viveram feliz para sempre, eles, os pães e dez filhos.
Que fantasia! Era impressionante como a imaginação voava quando o sono não vinha! Só faltava imaginar-se com ela, sua bela senhorita, passeando pelo céu num unicórnio voador em meio a nuvens de algodão...
No dia seguinte, pela primeira vez em anos, Manuel perdeu a hora e sua padaria não abriu logo cedo. Tinha dormido muito tarde, mas também quando o fizera, ferrara no sono. Que se danasse. Ia dormir mais! Então lembrou-se que sua doce princesa talvez aparecesse por ali atrás de pão, e pulou da cama, recriminando-se pela falta.
A moça não apareceu de manhã, mas Manuel pode se informar com os clientes. Suas deduções estavam corretas. Ela era criada de uma senhora que se mudara há pouco para a vizinhança. Fora isso, ninguém sabia mais nada.
O padeiro esperou que ela aparecesse de novo, o que aconteceu à tarde. Mais uma vez a mulher veio rebolando pela calçada, entrou na padaria, seu perfume exalando mais forte que o aroma dos pães recém-assados, pediu uma dúzia de pães e... e sumiu.
Manuel não teve coragem de falar uma única palavra. Ficou petrificado, como se tivesse sido vítima de uma Medusa.
Só depois que ela já desaparecera é que ele percebeu que de novo não havia tomado nenhuma atitude. Odiou-se por isso e arrancaria os cabelos, se eles já não fosse escassos. Assim, tirou o lápis que trazia agarrado à orelha e quebrou-o em muitos pedaços. Era um estúpido! Tinha perdido mais uma vez a grande chance de falar com ela.
Manuel passou o resto do dia acabrunhado, com o olhar perdido no horizonte, tanto que deu troco errado por duas vezes. E só despertava de seu transe porque os clientes berravam com ele:
- Oh, seu Manuel! Olha o que está fazendo! Pedi uma dúzia de pães e não um quilo de trigo!
- Sim, sim, minha senhora. Pois não, aqui está!
- Seu Manuel! Eu pedi pão!
- Mas claro!
- Seu Manuel, isso é o gato, embrulhado em papel de pão!
- Mil desculpas, minha senhora. Vou colocar mais dois pães para a senhora ficar satisfeita. Volte sempre, viu?
E foi assim o resto da tarde. Ele não tirava os olhos das curvas voluptuosas de Maria, que ainda pareciam dançar na sua frente.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

CAPÍTULO 4

No qual o capitão é operado e Manuel aprende a fazer panetone, ao mesmo tempo em que descobre o amor

1
Percebendo que não seriam resgatados tão cedo, os sobreviventes começaram a cozinhar. Havia sido muito difícil reacender o fogo, quase extinto, mas conseguiram. Manuel mostrara-se um cozinheiro de talento, talvez até melhor do que o anterior, tragado pelas ondas.
- Foi cozinhando que conquistei ao coração de Maria. – disse, animado. Nem parecia o bêbado que Pedro e Jean-Pierre haviam encontrado junto ao vinho dos oficiais.
Decidiu-se por matar uma galinha e fazer uma canja, uma receita portuguesa revigorante. Durante os preparativos, alguém se lembrou do capitão. Onde estaria? A maioria não o havia visto desde a noite de tempestade.
Pedro e Jean-Pierre se encarregaram de procurá-lo.
Acabaram o encontrando em sua cabine. Estava semi-adormecido, como que desmaiado. Balbuciava palavras sem sentido sobre seu querido tesouro, agora já bem escondido. Parecia em febre.
- Capitão, pode nos ouvir? – indagou Pedro.
- Não se aproximem... o tesouro deve ser resguardado.
- Capitão, suba conosco e venha comer alguma coisa.
O homem não se mexia. Jean-Pierre achou estranho e retirou as cobertas. A perna esquerda parecia normal, mas a direita... era uma chaga viva, já deformada e inflamada.
Jean-Pierre diagnosticou:
- Algo caiu sobre ele e fez isso com sua perna. Será necessário trazer sua comida aqui para baixo. Ele não tem condição de andar...
O marinheiro tocou a testa do capitão com as costas da mão e tirou-a em seguida.
- Está ardendo em febre!
Agostinho estava no tombadilho, observando o sol deitar-se no horizonte quando sentiu uma presença ao seu lado. Era Luiza, a viúva. Ela encostou a mão na balaustrada e ficou ao lado dele, em silêncio, observando o sol sumir no horizonte. - Você não parece um padre. – disse, por fim, e tirou os cabelos dos olhos, num gesto que perturbou Agostinho.
- Não pareço?
- De forma alguma. Padres são velhos e rabugentos. Conheço alguns padres.
- Os velhos já foram jovens um dia...
- Não é verdade. Quem é velho nasceu velho e morrerá velho. A velhice não está no rosto, está na alma.
Agostinho riu:
- Então não pareço padre. Com o que pareço?
- Talvez um aventureiro... um homem de coragem, pronto a desbravar o novo mundo com sua espada invencível.
- Não sei se sou muito bom com a espada... e parece-me que quem anda a desbravar o novo mundo com a espada são os espanhóis e tenho ouvido horrores sobre o que fazem com os pobre índios...
- E acaso é diferente o que vocês fazem com os índios?
- Nós catequizamos os índios, apresentamos a eles a palavra salvadora de Cristo...
- Vocês só se preocupam com os índios porque na Europa estão a perder adeptos. É uma questão de quantidade. A melhor religião é aquela que tiver mais adeptos...
- Você é muito direta...
- E é surpreendente que eu esteja viva. É isso que você quer dizer? Geralmente as pessoas que falam o que pensam não sobrevivem muito nos tempos atuais...
Agostinho assentiu com a cabeça.
- Sei ficar quieta quando necessário.
- Mas se arrisca falando isso comigo...
- Não arrisco nada. Sei que você não usaria o que eu disse contra mim... além disso, este navio é um local diferente de todos os outros nos quais já estivemos. O que vale lá fora não vale aqui...
- Estranho, também penso assim. Há algo nesse navio...
- Já leu Rousseau? – cortou a viúva.
- Sim, o filósofo francês... Leitura proibida, mas que pode ser conseguida com algum esforço. Um amigo me conseguiu com a condição de que eu lhe devolvesse o mais rápido possível e não dissesse uma única palavra sobre onde havia conseguido tal obra... mas não entendo...
- Rousseau dizia que o Estado surgiu de um contrato feito pelos homens para o bem comum... este navio é como a sociedade antiga. Estamos aqui a remedar o primeiro contrato social...
Agostinho pensou sobre o assunto. Era uma idéia ousada e surpreendente. Mais surpreendente ainda que viesse de uma mulher. Ele disse isso a ela.
- Sou viúva. Não devo satisfação a ninguém. Leio o que quero e penso o que quero.
Luisa fitou o horizonte, ficando de perfil. Agostinho percebeu que tinha lábios carnudos e vermelhos. As mãos apertavam uma à outra. Era mãos brancas, mas fortes. Devia ter pouco mais de trinta anos.
- Você ainda é jovem para ser viúva...
- Meu marido era um homem velho e rico. Casei por imposição da família. Fiz isso, mas decidi que seria a última coisa que me obrigariam a fazer.
Ela olhou-o nos olhos e agostinho percebeu que ela tinha grande olhos amendoados. Era um olhar firme, decidido.
- Agora que estou viúva, sou eu que mando em minha vida. Sou dona de meu nariz, como dizem. Faço o que desejo.
Os dois estavam tão próximos que agostinho podia sentir a respiração da moça.
- Por que decidiu ir ao Brasil?
- Na verdade, moro no Brasil. Fui a Portugal resolver o caso de alguns documentos. Queriam tomar minha fazenda.
- Não tem medo de viajar assim sozinha?
Luiza riu.
- Medo, eu?
- Sim, agora, por exemplo, corre certamente risco com os marinheiros...
- Reveja seus conceitos. Nem sempre o perigo vem de onde se imagina. Comigo o perigo veio de onde eu menos esperava. Em todo caso, sei me virar e posso garantir que aquele que tentar qualquer coisa vai ficar sem seu passarinho.
Disse isso e fez um gesto com a mão direita, como se apertasse uma bola.
- Agostinho! – precisamos de você!
O religioso olhou por cima dos ombros. Era Pedro, que vinha gritando.
- O que aconteceu?
- O capitão. Está em fogo... febre!